quarta-feira, junho 12, 2013

A saga de Iara


Quando Iara resolveu que tudo estava perdido ainda tinha muitos anos pela frente...

Abraçou-o de leve enquanto ele fingia cochilar e disse:

- Odeio quando você dorme.

- Odeio quando veste a roupa. – proferiu ele.

Muitos fatos sobre nós mesmos mudam, alguns agradecemos que sejam assim, outros não aceitamos.

No fundo ela sabia que sexo era mais cabeça que corpo e chorava baixinho não se reconhecendo mais.

Lembrou mais uma vez do estrangeiro elegante e louco que lhe rendeu umas boas lágrimas indesejáveis enquanto engolia cerveja quente. Ou quando alguma canção lhe arranhava a força bruta e forjada ao esbravejar que havia esquecido... Que já tinha vivido todo o luto daquele impasse. Mas, Iara sabia que aquela dor não era por acaso, que toda aquela alegria vivida e desfalecida deixou sim um antro dentro dela.

Toda mulher sabe o que não quer, mas nem todas administram a rejeição e o medo da mesma forma. As mulheres são mais fortes emocionalmente que os homens. Um cigarro, um café, uma canção e alguma satisfação se faz presente, assim, de repente.

O maior medo de Iara não era o da solidão e sim o de ficar anestesiada para sempre. De nadar e nadar e nadar e morrer na praia. Precisava de emoção como um junkie precisa da sua droga de escolha.

Certa tarde decidiu que precisava sangrar de vez sua atual verdade que ela não merecia carregar, desnecessário problema novo que ela sempre vai jurar que passou... E, vai ver passou mesmo, só não perdeu o jeito das consequências que todo caso mal resolvido deixa.

Ela se fez de tonta e seguiu conselhos de pessoas que não entendem nada do que é viver, ou se entendem eram bem mais controladas do que Iara. Conceito turvo esse de controle, pois já viu essas mesmas pessoas em descontroles bem maiores do que supunham que Iara tinha.

Iara perdeu todos os seus fiéis escudeiros numa batalha só, mas, a gente toda sabe que ela não desistiu (é boa de fingir de morta quando quer).

Mas, voltando ao caso sexual frustrado por um discurso pronto, Iara não percebe que foi outra forma de se valorizar, embora, seja a mais chata em sua opinião. Cômico como cada um reage diferente á realidade. No entanto, ninguém sorriu...

Enfim, entendeu a expressão que ele usou: “já estou vacinado”.

Nem se importou muito em ter sido, talvez, uma “farsante” sexual, pois ele foi um canalha ao praticamente ignorar uma garota apaixonada.

Tomou vários porres e não o esqueceu de fato.

Fechava os olhos, imaginava e consegui a sentir o perfume dele.

E é praticamente uma pessoa que não existe mais, como quando a gente passa sempre por uma avenida e num dia qualquer resolvem remover os prédios, enfim, não gostava de prolongar esses pensamentos, tampouco o assunto.

O fato que estava sempre com ela, mesmo dizendo que não, mesmo maldizendo de vez em quando; em certas canções que eram dolorosas acorde por acorde. Sempre existe em nós o “inexistente”.

Pensamentos e dúvidas de Iara não têm reta final, representados por um desenho ou símbolo teria exposta uma reticências, embora, ela quisesse mesmo um ponto final, e quem sabe quando a tristeza passar, ter a sorte rara de uma exclamação.

Porém, dessa tarde não caiu uma gota sequer de sangue de Iara, só a escuridão em versos bons que veio pra tentar acalmar. Ela não tinha mais tempo para sangrar.

“Seria mesmo tão horrível assim pra conduta de alguém querer de um homem, por alguns instantes, apenas que ele nos faça gozar?

Quanto pudor idiota se vê por aí...” – concluiu Iara.

Só quem já viu que sabe o desespero de ver suas aflições expostas em forma de sangue descendo ao acordar (coisa de mulher).

Era um paradigma de contradições seu olhar perdido e por vezes ausente.

Se olhava no espelho e pensava: “Perdi todo o meu glamour e o brilho dos olhos, mas, estou viva e tenho que fazer algo com isso.”.

Mulheres inteligentes e noites de lua cheia nunca perdem o glamour, Iara não sabia, e até mesmo julga a lua cheia como a lua dos desencontros. Tinha todo um misticismo próprio e medo de coisas que ninguém entendia. Uma criança louca com cantigas sinistras na ponta da língua.

“Eu não sei para onde estou indo, nem por que ir. A sensação é de medo misturada com frustração. Coisa pensada e idiota. Até quando?

Se Deus está reparando nos mínimos e máximos erros, e, dessa forma, regulando a alegria surpresa, os bons acontecimentos. Ele está sendo justo ainda. Caralho! Medo de continuar assim e medo de não conseguir mudar.

Minhas palavras são falhas, assim como as minhas supostas escolhas.

Falta de força de aguentar a rotina morna. Contradições eternas de um diário de folhas repetidas...”.

Tinha um relacionamento meio conturbado com Deus: não acreditava muito nele, nem Ele nela. Nem todo dia é dia de festa meu camarada.

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