sábado, novembro 30, 2013

Run, Lorena, run...

Ensaios soturnos em demasia.
Estaria a vida clamando pela nossa morte o tempo todo?
Estaríamos, nós, meros mortais distraídos demais com o ritmo mórbido da labuta? Escravos de um ego que separou nossos dedos e derreteu nossa aliança?
Estaríamos mais próximos do abismo, e abraçados com essas paranóias filosóficas do que com a brisa leve do amor?
Ela se perguntava como seria a vida em outro lugar. Em vão e num ato ridículo de pena de si mesma. Como se nada bastasse para os seus olhos grandes.
“Ela não passava de uma tola covarde!” – eu disse para Vicentti quando ela comprou a passagem para a cidadezinha que sempre odiou. Disse que era pra ver a mãe. Na verdade, aposto que ela queria mesmo era encontrar aquele velho nojento dum olho só que a criou tão lunática como ele.
As mulheres quando amadas se tornam corrompidas. Perdem a capacidade de amar e um jeito mulher de ser fica sovina de afetos.
Lorena me deixou no dia de meu aniversário. Mesmo antes da nossa solidão á dois, eu já sentia que ela não me amava como antes... Antes, quando fui invenção romântica daquela tresloucada arrogante, neurótica insaciável! Pecaminosa ébria de poucas elocuções.
Ela me deixou, deixou-se aqui, catatônica no meio da sala... Lorena voltando pra sua terra natal. Lorena abandonando um si que ela tanto lutou para ser.
Nunca vi deixar a melhor versão de si e pegar a estrada como avantesma para os braços fétidos e transgressores do passado.
“Lorena sabe se reinventar.”- me disse Vicentti na noite em que ela partiu com um sorriso maldoso no rosto, engolindo o uísque que eu comprei e olhando minha cama desarrumada, ainda com o formato do corpo dela. Por que todo cara que nos dizem melhor amigo deseja transar com sua mulher na sua cama?
Lorena só sabe mesmo é inventar e destruir tudo aquilo se mostra amável e ao seu domínio. (Era daquelas meninas que brincavam de fazer velório com as bonecas e depois de tanto rir acabava aos prantos).
Tem alma de bacante e mente de astronauta.
Quando me casei com ela a luz da igreja acabou (e igreja não tem gerador), muitas velas foram acesas e eu via a chama refletida nos olhos dela... Apenas chama de vela acesa, eu vi amor.
Nosso casamento foi como um sonho daqueles abstratos, tão abstratos que dá vontade de acordar e deixar pra sonhar outra noite.
Nosso casamento durou exatos três meses, e eu seria muito infido se não assumisse que foram os melhores três meses da minha vida.
Conheci o inferno particular de uma mulher única, também chorei no paraíso grotesco dos seus olhos.
Agora Lorena se foi, nem quero saber se voltará algum dia, não quero o dinheiro que ela me deve, não quero as tranças do cavalo que ela me roubou, não quero também suas pernas perfeitas de volta ao meu portão.
Quero de volta a minha paz que ela levou no meio da bolsinha de comprimidos controlados, quero não chorar ao ouvir seu nome na televisão, quero esquecer as bolinhas de sua calcinha preferida, quero dormir sem procurar seus braços na cama. Quero não me lembrar que se ela partiu é porque algo de mim partiu de dentro dela antes... Algo que eu destruí com minhas próprias mãos.
Sei que Lorena não quer olhar pra trás ou pra frente, quer apenas fechar seus olhos em terras distantes. Quer ser flor, logo ela que sempre foi pedra. Quer tornar sol as tardes que ela fez chover. E quer mais uma vez trucidar o amor que é da cor de suas asas machucadas.
Então, eu sonho e vejo Lorena sangrando, correndo entre árvores vívidas, eu que talvez nunca tenha a amado. Apenas amava o amor que ela tinha por mim e adorava desfilar com uma mulher linda e de olhos tão insanamente belos pela cidade, pelos bares.
Lorena partiu, deve estar lá com suas mistificações, com seus olhos enigmáticos tristes, com suas belas pernas cruzadas, dessa vez não pra vida, mas, para aquele passado que ela nunca vai esquecer. E Vicentti tinha razão era mulher demais pra mim, eu acabaria estragando tudo. E estraguei.


 

 

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