segunda-feira, julho 23, 2007

(eu não ando bem da cabeça)


Parece que minha garganta vai começar a doer, está estranha (ou será só um nó na garganta?), amanheceu chovendo muito.
Passei à tarde com a chuva me pondo medo, ameaçando aumentar, algumas trovoadas.
Desde ontem que me fragilizei assim.
Exposta.
Com medo.
Fugindo.
Tem dias que não faço questão de mais nada, tem dias que tanto faz se os meus amigos estão distantes, se o mundo é feito de ostentação... Tem dias que eu desisto de tudo (dela, dele, de mim, de você, de nós, do universo).
Tem dias que dá pra ver a distância que existe entre eu e a vida que eu queria pra mim.
Sinto saudades duma alegria, sinto falta de estar contente, de sorrir em paz.
Tem dias que não há ninguém, e tem dias que nem falta eu sinto mais.
Ontem à noite quando cheguei, estava muito quente, minha cabeça doía, minha alma se contorcia em agonia, pra que eu nunca mais deixasse que a vissem.
Eu devo isso a ela.
Vou ficar aqui e esperar tudo passar.
Para amanhecer novos dias, em que eu não precise mais desses seres estranhos (velhos & sujos) pra me contradizer, pra sentir pena e desejar me comer.
Porque eu posso ser um pouco ingênua e amedrontada, mas eu sei bem o que querem quando olham pra mim.
Não entendo a raiva, tampouco a mágoa e essa irritação, não quero entender, quero esquecer, quero que passe esse tormento antigo, com nova face, novos versos, e a mesma mentira...
Pro inferno!
Eu sei que não podia me matar, acabaria me deixando viva, agonizando por odiar ainda mais o que me move.

sábado, julho 21, 2007

certas vidas não saem do rascunho....


"Eu só enjôo quando olho o mar, me disse a comissária do sea-jet.Estou partindo com suspiro de alivio. A paixão, Reinaldo, é uma fera que hiberna precariamente.Esquece a paixão, meu bem; nesses campos ingleses, nesse lago com patos, atrás das altas vidraças de onde leio os metafísicos, meu bem.Não queira nada que perturbe este lago agora, bem.Não pega mais o meu corpo; não pega mais o seu Corpo.Não pega.Domingo à beira-mar com Mick. O desejo é uma pontada de tarde. Brincar cinco minutos a mãe que cuida para não acordar meu filho adormecido. And then it was over. Viajo num minibus pelo campo inglês. Muitas horas viajando, olhando, quieta.
Fico quieta.Não escrevo mais. Estou desenhando numa vila que não me pertence.Nao penso na partida. Meus garranchos são hoje e se acabaram."Como todo mundo, comecei a fotografar as pessoas à minha volta, nas cadeiras de varanda."Perdi um trem. Não consigo contar a história completa. Você mandou perguntar detalhes (eu ainda acho que a pergunta era daquelas cansadas de fim de noite, era eu que estava longe) mas não falo, não porque a minha boca esteja dura. Nem a ironia nem o fogo cruzado.
Tenho medo de perder este silêncio.Vamos sair? Vamos andar no jardim? Por que você me trouxe aqui para dentro deste quarto?Quando você morrer os caderninhos vão todos para a vitrine da exposição póstuma. Relíquias.Ele me diz com o ar um pouco mimado que a arte é aquilo que ajuda a escapar da inércia.Outra vez os olhos.Os dele produzem uma indiferença quando ele me conta o que é a arte.Estou te dizendo isso há oito dias. Aprendo a focar em pleno parque. Imagino a onipotência dos fotógrafos escrutinando por trás do visor, invisíveis como Deus. Eu não sei focar ali no jardim, sobre a linha do seu rosto, mesmo que seja por displicência estudada, a mulher difícil que não se abandona para trás, para trás, palavras escapando, sem nada que volte e retoque e complete.Explico mais ainda: falar não me tira da pauta; vou passar a desenhar; para sair da pauta."

(Ana Cristina Cruz César)

quinta-feira, julho 19, 2007

tem jeito não...


" Todos os dias, todos os olhares, e todas as vezes que respiro, e todas as voltas que dou por aí, ou números, ou classes, ou lugares, ou ruas, ou pensamentos, ou sonhos, ou pesadelos, ou nomes, ou danças, pessoas, todas as músicas, ou olhos, ou roupas, ou revistas, ou a cada merda de segundo. TODOS meus GRITOS. É sempre você.."


(Caio Fernando Abreu)

sexta-feira, julho 06, 2007

“Talvez eu passe um tempo longe da cidade, quem sabe eu volte cedo ou eu não volte mais!”


Acordei cedo hoje.
Dormi um pouco alterada ontem.
Tequilas, cervejas, novos amigos, música ruim e eu com um bom humor digno de quem cortou o cabelo e acertou no corte!
Meu irmão sempre me disse para dar espaço às pessoas que não se parecem comigo.
E definitivamente, às vezes é muito bom não falar de coisas sérias, não ouvir músicas tristes e “complexas”...
A vida parece mais real quando se perde uma série de conceitos bobos, parece que o mundo te sorri, mesmo de longe.
Eu tenho visto a vida com certa bondade dos últimos dias e penso mesmo que as pessoas são sempre os melhores lugares.
Deixo esta cidade amanhã de manhã, vou lá para a terra do meu pai, respirar aquele ar que é tão ímpar, sorrir para aqueles olhos que são tão meus...
Estou buscando vida até onde não tem, e as palavras são só palavras perto de tanta coisa que podemos ver.
Não quero mais essa melancolia que limita os olhos e que só faz repetir as palavras.
Não há nada de tão errado assim que não possa me mobilizar para um sorriso.
“Quando não se tem nada, não há nada a se perder”, já dizia o Dylan.
Essa pretensão maluca que nos faz ser tristes e nos faz heróis de nós mesmos, que não se negam jamais!
Ah!
“Alma, alma.”- existe alma sim, porra!
Talvez eu me contradiga ainda mais, e talvez a graça de tudo seja essa.
Esse segmento de contradições, porém sempre com classe, sempre mantendo a pose de quem sabe tudo do mundo (“maldita petulância!”, já dizia mamãe).
Enfim, vou lá para o meu lugar, andar de trem, sorrir no mesmo ritmo do doce olhar do meu tio, tirar fotos de tudo!
Não sei quando volto, mas eu devo voltar...

segunda-feira, julho 02, 2007

e era sincera, toda essa pose de mulher austera?

Odeio essas noites que não se decidem quanto ao clima.
Gosto de muito frio, gosto de extremos.
O semestre acabou na labuta intelectual de estudar História.
Sinto-me perdida, como se tivesse perdido muita coisa, sinto como se minha faculdade fosse uma merda, e que está me privando de muitas coisas.
Por outro lado, penso também se eu agüentaria mais, não estou reclamando, mas meu curso é foda, e muitas vezes durante o semestre eu me perguntei se ia agüentar, se era mesmo isso que eu queria.
Minha professora de “introdução ao estudo da história” me deu o mapa dos caminhos ao inferno e ao céu.
E eu não sei se é esse o processo, mas eu mudei muito desde que comecei este curso, li muita coisa que me fez mudar de idéia, e mudar de idéia é muito desconfortável, muito mais para seres petulantes como eu.
Uma grande amiga minha me disse que esse curso me faz mal.
Eu não sei, porque eu tento ver a perda da ingenuidade não como uma maldade, mas sim como uma luz.
Luz que eu precisava; parar de se importar com tudo. Parar de sinalizar a vida com os olhos...
Talvez seja isso que a incomode tanto, meus olhos não sinalizam mais nada...
E por falar em amigos...
Eu nunca passei tanto tempo sem os meus...
Angustia-me muito, algumas vezes em que não encontro nenhum deles para contar coisas bobas (“o mundo é pequeno sem ter com quem dividir as coisas banais”); dói um bocado notar que sei tão pouco deles e eles tão pouco de mim. Alguns recados fragmentados nessa porra fria de internet, “eu te amo” a gente sempre diz, e ignora que há tempos não cultua esse amor.
Disseram-me certa vez que é pra isso que servem os namorados: para ocupar o lugar dos amigos quando estes já não podem estar ao seu lado.
Mas sei lá, eu não trocaria ninguém pelos meus amigos, eles são tão singulares e ímpares para mim...
Eu sinto que ninguém mais faz questão de ninguém no mundo atualmente.
Pra mim isso tudo é ainda muito estranho, pois saudade pra mim é assunto sério e eu não sei ficar muito tempo longe daqueles que eu amo.
Por falar em saudade, amor, tempo... Esses dias me peguei chorando ao ler uma antiga carta daquele que sabia mais de mim que eu mesma.
É curioso que ele me repreendia por uma to meu que hoje eu trato com tanta naturalidade e quase beira o vício (se é que já não é um).
Bobagem achar que se pode melhorar as pessoas com palavras bonitas...
Se fosse assim eu seria outra pessoa, por tanta coisa que já li...
O que podemos fazer pelas outras pessoas é estarmos presente, é olhar, é mandar pro inferno, gritar...
As pessoas são movidas à euforia, à reações humanas de desespero, de cólera, de loucos atos de amor...
Se tudo fica entre versos, entre as palavras, parece que perde a vida, parece que não existiu.
Eu gosto muito das coisas escritas, de fato, porém eu não sei lidar com a ausência que essas palavras escritas carregam.
Sei muito pouco daquilo que quero, mas sei muito bem das coisas que eu não quero.
Não sei bem o que estou tentando fazer, oscilo entre a euforia e a mais crua das tristezas...
E depois de alguns meses a vida me tem sido justa.
Meu ponto fraco está aguçado: a beleza.
Nada me deixa mais transtornada do que a beleza, porém acho que está tudo sobre controle, que eu vou saber me virar...
Meu encanto também mudou... E nada se perde, tudo se transforma.

Por Amanda na madrugada de dois julho.

quinta-feira, junho 28, 2007

Nunca gostei tanto de festa junina.

"Chegue bem perto de mim. Me olhe, me toque, me diga qualquer coisa. Ou não diga nada, mas chegue mais perto. Não seja idiota, não deixe isso se perder, virar poeira, virar nada..."

Caio Fernando Abreu

quarta-feira, junho 20, 2007

Confessional

"Amar, amei. Não sei se fui amado,
pois declarei amor a quem odiara
e a quem amei jamais mostrei a cara,
de medo de me ver posto de lado.
Ainda odeio quem me tem odiado:
devolvo agora aquilo que declara.
Mas quem amei não volta, e a dor não sara.
Não sobra nem a crença no passado.
Palavra voa, escrito permanece,
garante o adágio vindo do latim.
Escrito é que nem ódio, só envelhece.
Se serve de consolo, seja assim:
Amor nunca se esquece, é que nem prece.
Tomara, pois, que alguém reze por mim…"
( Glauco Matoso)

terça-feira, junho 19, 2007

pois é!


"Ainda que dentro de mim as águas apodreçam e se encham de lama e ventos ocasionais depositem peixes mortos pelas margens e todos os avisos se façam presentes nas asas das borboletas e nas folhas dos plátanos que devem estar perdendo folhas lá bem ao sul e ainda que você me sacuda e diga que me ama e que precisa de mim: ainda assim não sentirei o cheiro podre das águas e meus pés não se sujarão na lama e meus olhos não verão as carcaças entreabertas em vermes nas margens, ainda assim eu matarei as borboletas e cuspirei nas folhas amareladas dos plátanos e afastarei você com o gesto mais duro que conseguir e direi duramente que seu amor não me toca nem me comove e que sua precisão de mim não passa de fome e que você me devoraria como eu devoraria você... ah se ousássemos."


(Caio Fernando Abreu)

sábado, junho 16, 2007

Saudades.




"(...) e depois que você partiu o mel da vida apodreceu na minha boca (...)."

(Tom Zé)

sexta-feira, junho 15, 2007

Bah!


"Não sei porque eu tô tão feliz
Não há motivo algum pra ter tanta felicidade
Não sei o que que foi que eu fiz
Se eu fui perdendo o senso de realidade
Um sentimento indefinido
Foi me tomando ao cair da tarde
Infelizmente era felicidade
Claro que é muito gostoso
Claro que eu não acredito
Felicidade assim sem mais nem menos é muito esquisito
Não sei porque eu tô tão feliz
Preciso refletir um pouco e sair do barato
Não posso continuar assim feliz
Como se fosse um sentimento inato
Sem ter o menor motivo
Sem uma razão de fato
Ser feliz assim é meio chato
E as coisas nem vão muito bem
Perdi o dinheiro que eu tinha guardado
E pra completar depois disso
Eu fui despedido e estou desempregado
Amor que sempre foi meu forte
Não tenho tido muita sorte
Estou sozinho, sem saída, sem dinheiro e sem comida
E feliz da vida!!!
Não sei porque eu tô tão feliz
Vai ver que é pra esconder no fundo uma infelicidade
Pensei que fosse por aí, fiz todas terapias que tem na cidade
A conclusão veio depressa e sem nenhuma novidade
O meu problema era felicidade
Não fiquei desesperado, não, fui até bem razoável
Felicidade quando é no começo ainda é controlável
Não sei o que foi que eu fiz
Pra merecer estar radiante de felicidade
Mais fácil ver o que não fiz
Fiz muito pouca aqui pra minha idade
Não me dediquei a nada
Tudo eu fiz pela metade, porque então tanta felicidade
E dizem que eu só penso em mim, que sou muito centrado
Que eu sou egoísta
Tem gente que põe meus defeitos em ordem alfabética
E faz uma lista
Por isso não se justifica tanto privilégio de felicidade
Independente dos deslizes dentre todos os felizes
Sou o mais feliz
Não sei porque eu tô tão feliz
E já nem sei se é necessário ter um bom motivo
A busca de uma razão me deu dor de cabeça,
acabou comigo
Enfim, eu já tentei de tudo, enfim eu quis ser conseqüente
Mas desisti, vou ser feliz pra sempre
Peço a todos com licença, vamos liberar o pedaço
Felicidade assim desse tamanho
Só com muito espaço! "
(Luiz Tatit)

quarta-feira, junho 06, 2007

"Tá fazendo frio nesse lugar, onde eu já não caibo mais... já não caibo em mim."


"Arrumo a mala. Guardo as meias.

Lembro que gostava dessa meia vermelha, e sorrio lembrando de quando nossos pés se perdiam...

E o Chico tem mesmo razão, confundir as nossas pernas, não me deixou mais ir para muito longe.

Guardo seu sorriso no cantinho junto dos cintos e sinto muito, por sentir tanto assim e não saber até hoje como te deixar...
Já fechei a janela, já disfarcei seus traços do meu rosto com o pó de arroz.

É a hora da partida, meu amor..."


Amanda Cristina.


sexta-feira, junho 01, 2007

tão menina


"Ela cresceu ouvindo certas coisas
Mas acabou vivendo uma outra história
Enquanto tinha tempo, acreditava
Enquanto acreditava, via o tempo indo embora
Permaneceu meio complicada
Na medida que a vida vinha e atropelava
Carregou todos os seus sonhos como pôde
Até assistir, um por um, desmoronados
Carregou todos os seus sonhos como pôde
Até assistir, um por um, desmoronados
Não vai mais amanhecer
Pelas esquinas o medo sussurra
Não vai mais amanhecer
Entre seringas e guardanapos
Não vai mais amanhecer
Sem dono, ganhou a noite
Sem dono, ganhou a noite
E era tão menina,
E era tão menina,
Era tão menina,
Era tão menina...
Entre um desalento e um suicídio
Ela preferiu o gozo de um pesadelo
Suas lágrimas que nunca brotaram
Inundam sua alma, inundam sua alma
Suas lágrimas que nunca brotaram
Inundam sua alma, inundam sua alma
Ressecam o espírito, paralisam o corpo
Regelam seu rosto, regelam seu rosto
Ressecam o espírito, paralisam o corpo
Regelam seu rosto, regelam seu rosto
Não vai mais amanhecer
Entre algemas e corações abandonados
Não vai mais amanhecer
Sua bandeira virou um alvo
Não vai mais amanhecer
Sem dono, ganhou a noite
Sem dono, ganhou a noite
E era tão menina
E era tão menina
Era tão menina…
Ela era tão menina
tão menina
Ela era tão menina
tão menina
Ela era tão menina
tão menina"
(Lobão)

sábado, maio 26, 2007

A nostalgia da borboleta

Ontem eu vi um homem que há anos eu não via; um homem que atormentou meus doze anos... Um homem que ocupou meus pensamentos durante anos, que me fez entender muita coisa sobre o que as pessoas podem perder e nunca mais recuperar.
Eu estava na sexta série, estudava no período da tarde num colégio próximo daqui de casa (colégio onde passei boa parte da minha vida), ele me levava para o colégio no seu transporte escolar.
Típico homem medíocre, vazio, com semblante de “malandro”, associado da “Vai-Vai”, sempre de boné, nas horas vagas oscilava entre a noiva (loira com semblante de vulgar) e a atendente da auto-escola (morena, nome estranho, também com semblante de vulgar). E ainda dirigia um Chevette azul.
Este homem de vocabulário pobre, aspirante a nada que fosse valer a pena; este homem era o meu tal “primeiro amor”.
Eu era infantilmente “apaixonada” por ele...
Aos doze eu já tinha certa pose de “mocinha grande”, usava o cabelo de um jeito diferente e fui a primeira da escola a ter cabelo repicado (“do tipo menor na frente, saca?”), entendia muito de música para um serzinho de doze anos, me expressava muito bem também, e já rabiscava alguns fetos de poesia...
E eu sofria, sofria tanto por não ter o “tio da perua” que sempre me dizia frases de senso-comum que nos outros me irritava, mas vindas da boca dele faziam todo o efeito...
E eu chorava, escrevia, “amava” e sonhava...
Um dia decidi que iria declarar o meu amor...
Levei dias e dias, dizendo que precisava dizer algo...
Um certo dia, eu disse “amo você”! Com a veemência duma mulher de 20 anos, veemência essa que sequer hoje eu tenho para amar.
Ele sorriu...
E naquele sorriso eu via o mundo que nunca faria parte. Um mundo pequeno, limitado, repleto de coisas que nunca farão sentido...
Só que o mundo que eu queria ver era outro e com dozes anos a gente só vê o que quer... E ainda bem...
Então, ele sorriu e na hora em que eu ia descer da “carruagem” ele me disse todo mal-intencionado: “Você não vai me dar um beijo?”.
Eu sorri, toda encabulada –voltara a ter doze anos- beijei-lhe a face e desci tensa para à casa.
Até hoje eu não entendo se ele queria mesmo aquele beijo ou se só queria ver o que iria fazer. No fundo ele sabia que eu não iria beijá-lo, não ali, naquela situação.
Porém, hoje eu sei que jamais iria lhe beijar, perderia toda a sensação que, hoje sei, era o que eu precisava.
Amava sim, o que nunca iria acontecer entre nós. Amava o amor que eu sonhava em sentir e que teoriza naqueles olhos verdes que eu nunca vou esquecer e não esqueci.
Ontem eu o vi numa pizzaria próxima à antiga casa dele.
Estava eu com minha mãe e seu namorado, eu rindo e blasfemando bobagens sobre o que me acontece - como sempre faço quando estou com eles -, quando minha mãe comenta sobre a roupa grotesca duma criança no colo do pai.
Eu me viro para olhar e reconheço a touca vermelha do pai da criança. Não sei, algumas imagens marcam nossas vidas, eu olhei e sabia que era ele, a mesma touca de sete anos atrás.
Fiquei olhando perplexa, quando notei que além da criança, uma mulher loira, gorda, com cara de cansada, sentada sobre a mesa o acompanhava: esperavam uma pizza, não sei.
Ele que olhava para o lado se virou e me viu, no instante ele sorriu, e disse “oi” baixinho, talvez para a loira não ouvir...
Eu perdi a pose, o assunto, o ar, fiquei sem graça, já não sabia mais como me portar na mesa...
Mexia no cabelo compulsivamente, sorria nervosa, fazia caras&bocas e olhava pelo cantinho dos olhos e via que ele também me olhava.
Eu dispensaria a pizza e a minha pepsi twist em troca de saber o que ele pensou, o que sentiu, o que aquele olhar quis dizer.
Dei uma golada no vinho de muito mau gosto que minha mãe pediu, pra ver se eu descontraia e voltava ao normal.
Eu nem quis ver quando ele foi embora, talvez essa cena toda tenha durado uns cinco ou dez minutos, eu não sei.
Foi desconcertante vê-lo ali, com aquele pequenino guri nos braços, aquela “esposa” grotesca, envelhecida, tão mórbida de se ver.
Talvez seja uma grande bobagem ficar assim sem chão por ver que as pessoas não ultrapassam jamais o destino que esperam delas.
Eu vi aquele homem tão sem cor, tão parte duma rotina banal e me deu saudade das luzes que só eu - quando menina de doze anos – iluminou naquele rosto triste.
Será que ele lembra daquela época?
O que será que ele me diria se pudéssemos um dia conversar?
Sempre pretensiosa, talvez ele tenha se decepcionado tanto quanto eu, eu também mudei, eu também me tornei vazia, também não tenho mais olhos vivos, também envelheci e ocupei o espaço que me cabia na vida comum e banal.
Isso não tem importância alguma eu sei, faz tanto tempo.
Hoje eu sei que com doze anos eu era muito mais austera que ele, sei que ele aprendeu muito mais comigo do que eu com ele.
Ontem foi um dia estranho.
O problema é que odeio quando meu passado passa por mim, e ele sempre faz isto quando eu penso que eu estou caminhando (em ritmo de via-crúcis) rumo ao futuro.
Ainda ontem eu vi a mãe duma antiga grande amiga minha que se casou no ano passado.
Ela me olhou surpresa, talvez pelo casaco “afetado” que eu estava usando ontem (elegantíssimo!) ou talvez pela pose de garota bem-resolvida que eu peguei emprestado de alguma musa das canções do Jobim.
Ela me perguntou sobre minha mãe, aquela preocupação instantânea que dá nas pessoas quando elas passam muito tempo sem se ver...
Contou-me que minha antiga amiga está grávida.
Tentei conter a perplexidade que me tomou a face.
Eu nunca sei o que dizer nestas situações, sempre digo coisas como “sério?”, “não acredito”, “que bom!”; eu sou daquelas pessoas sem graça e sem reações espontâneas de surpresa ou alegria.
Ela desceu do ônibus e eu sentei em seu lugar, fiquei pensando no quanto eu e a filha dela éramos amigas, no quanto éramos parecidas, pensei na cumplicidade, nas noites de sábado que partilhávamos...
Lembrei de quando ela se mudou daqui do bairro e que nos vimos uma vez por ano desde então.
Recebi o convite do seu casamento no ano passado, lembro que chorei no dia em que ela casou, porque eu realmente não conhecia aquela garota vestida de branco, ainda tão linda, ainda tão parecida comigo no jeito de andar...
Ela tentando fingir felicidade por eu estar ali e eu tentando fingir que não chorava, enquanto realmente desejava que ela fosse feliz, nem que eu tivesse que dar o pouco que eu tinha pra completar a dela.
E ela nunca vai saber disso, eu nunca vou poder dizer nada disso pra ela, dizer o quanto eu senti a falta dela quando ela mudou daqui, o quanto eu lamentei não fazer parte de nada daquilo.
Ela nunca vai saber que eu esperava bem mais dela.
Ela tem dezenove anos apenas, eu tenho dezenove anos apenas.
Nós apenas temos dezenove anos!
Dói muito em mim como as pessoas se perdem uma das outras.
Dói muito porque não é falta de amor, não é por nada que possamos controlar, ou entender...
Eu sinto tanta saudade dos tempos que passaram, das noites na casa da minha antiga amiga, das besteiras de menina que compartilhávamos; saudades do “amor” pelo “tio da perua”, saudades daquela tranqüilidade que eu fazia questão de abalar, mas que ainda prevalecia, tanto que eu sei que realmente existia e que me faz tanta falta hoje.
Talvez eu receba o convite para o chá-de-bebê da minha amiga. Talvez eu nem vá e sequer a veja este ano.Ou talvez ela sequer mande um convite. Talvez eu veja o homem de novo, talvez não.
Essas coisas me doem muito, talvez por seu ser tão ligada ao meu passado; às pessoas que eu amo, às experiências que fizeram de mim quem sou hoje ...
Talvez por eu não saber conjugar amor no passado.
Talvez por ser um pouco ingênua e sentir o mesmo afeto por pessoas que foram presentes um dia e que não vejo mais.
Enfim, hoje a labuta é outra e o tempo não pára nem vai esperar...
(E hoje eu sei: ninguém espera ninguém!).
Essas madrugadas frias me deixam assim...
E essa dor é tão comum que logo passa.Como tudo que passou, sem deixar nenhum vestígio, nenhuma palavra guardada para madrugadas como essa.
Don’t worry about me.

quinta-feira, maio 10, 2007

Atraso ( no dia que a nossa ampulheta atrasou)

Era tarde,
Era tarde!

A unha ruída, lascada e suja do tempo arranhou o mais altivo dos veludos,
e era tarde.
Sim, meu amor é tarde.

E vai envelhecendo nossa paz,
já não precisas de mim para me amar,
é tarde, é tarde pra dizeres que me ama,
(porém, você me ama! e todos aqueles bêbados do bar sabiam disso por mim)


E eu tardo
você tarda,
só nosso amor não tarda.
Nosso amor se tarda morre como uma ampulheta quebrada,
num dia em que uma ampulheta atrasar.
Era tarde.
Era tarde.

E até nosso abraço te atrasa,
atrasa sua vida nova,
vida nova amor,
vida que não tarda,
mas que ainda vai comer seus ponteiros pra que não notes que estas de novo atrasada.
Mas calo-me como o relógio daquele bar,
Eu sim tardei.
Era tarde.
Era tarde.


A verdade é que a vida atrasa,
quando quem sente não sabe como sentir...
e atrasa!
( e se acaba)
E nunca mais se acha na correria dum atraso.

Até o dia em que o desejo perde a pose,
(é tarde, é tarde)
e a lembrança é que tarda em nos deixar ser nós mesmos...
E das mãos fica a lembrança dum longo abraço,
dum cigarro amassado,
dum amor que não cabe mais num desconforto dum atraso.


Amanda Cristina Carvalho
(numa manhã fria de maio)

quarta-feira, abril 25, 2007

aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaah!

"Vem para que eu possa recuperar sorrisos, pintar teu olho escuro com kol, salpicar tua cara com purpurina dourada, rezar, gritar, cantar, fazer qualquer coisa, desde que você venha, para que meu coração não permaneça esse poço frio sem lua refletida."

quinta-feira, abril 19, 2007

"metida a inteligente com tanta beleza" ¬¬

Abriu os olhos e eles sorriam tanto mesmo que em silêncio.
Eu pensei no preço que ela me pagaria pra sumir nos próximos meses.
Era lindo o rosto em silêncio que dá vontade de apagar as luzes do mundo e esperar que ela volte a gritar...
Aquele olhar ficava me incitando a pular, eu olhava pra baixo e via cores bem mais vivas que o vermelho do meu sapato.
Eu senti minhas pernas moles quando lambeu meu pescoço, eu pensei em recuar, porém, havia mais que concreto me impedindo... Havia meu desejo ali explicito na minha boca mordida e meus olhos fechados implorando por mais.
Minha alma é uma puta de luxo, e todo corpo tem um preço, nem que dá grana toda só fique mesmo com uns trocados pro cigarro e continue vazia como chegou.
Aquele olhar está entre minha bondade e a minha condição.
Ele está me cortando por dentro e a sensação é tão boa que eu acho que nem se o sangue escorrer dos meus poros eu vou o deixar sair daqui de dentro...
Os lençóis que se encharquem...
Eu que enlouqueça.
Ela que me salve.

quarta-feira, abril 18, 2007

Porque a vida toda eu fiquei curtindo um vento que só me dizia que nunca ia voltar o ar fresco que me nutria.
Eu estou muito simpática com o medo essa noite, queria um astro lunar maior que o que meus olhos alcançam; uma forte luz que me dissesse que não preciso de mais ninguém além dos que eu já precisei e esqueci um dia.
Queria aquele tipo de voz que não irritasse meu bom-senso e só me fizesse rir.
Um braço sobre meu pescoço e uma espontaneidade digna de uma noite longa de sexo e silêncio. Sentir as loucas damas caminhando por meus olhos, e o calor de suas línguas descendo por meu pescoço.
Queria ser a vítima da libido de alguém até que se fosse impossível mais prazer...
Ah...
Vasta vida!
Entre acidentes de trânsito, ausências&desejos, fumaça e delírio.
Meu medo era o de você pensar que eu não tenho mais jeito.
Eu tenho sim.

segunda-feira, abril 02, 2007


" Guarde para os dias de chuva

Tudo aquilo que você viveu

E nunca deu valor

Os livros que eu deixei pela sala

Aqueles versos que eu mandei

E você nem notou

Então guarde para os dias de chuva

Aquele beijo que eu te dei

Aqueles sonhos todos que caíram pelo chão

Guarde para os dias de chuva

Aquele filme que te fala de paixão

Mesmo que não faça sentido

Guarde os discos que eu te dei

E você nem tocou

O telefone dos amigos antigos

Que a gente tanto prometeu

E nunca procurou

Então guarde para os dias de chuva

Aquelas fotos do verão

Aquela recordação do que ficou pra trás

Guarde para os dias de chuva

Você pode descobrir que falta faz

E mesmo que não faça sentido

Guarde os discos que eu te dei

E você nem tocou

O telefone dos amigos antigos

E a coleção do marvin gaye

What’s going on… (?) "

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

Cinco coisas que quero fazer antes de morrer?
01) Publicar um livro de crônicas e poesias.Só meu!
02) Fazer com que todos que amo sintam esse amor.
03) Morar em Minas Gerais.
04) Faculdade de cinema.
05) Me casar.

Cinco coisas que eu faço bem?
01)Cozinhar.
02) Massagem.
03) Indicar livros.
04)Amar .
05) ... rs

Cinco coisas que eu mais digo?
01) “Claro, e eu que tenho que agüentar”.
02) “Gatinhooooooooooooo”, quando vejo felinos pela rua.
03) "Bye bye baby."
04) "Ama? Ama uma porra que ama.”
05) “Vá se fuder”, “Vá para o meio, para o centro, para o núcleo do inferno”, frase que peguei do mestre Frank.

Cinco coisas que eu não faço ou não goste de fazer?
01) Aturar gente idiota.
02) Mentir.
03) Dizer coisas que não estou sentindo.
04) Ouvir música ruim.
05) Ser vulnerável quando se trata de amor.

Cinco coisas que me encantam?
01) Estar perto do meu tio Marcos.
02) Olhares grandes, cheio de vida e sinceridade.
03) Encontros inesperados que valem uma vida.
04) Andar por Minas Gerais.
05) Estar com meus amigos.

Cinco coisas que eu odeio?
01) Falta de caráter e de sinceridade.
02) Adolescentes declarados.
03) Gente fresca e histérica.
04) Subliteratura barata.
05) Ingratidão.

Cinco pessoas para responder isto?
01) Vini.
02) Talita.
03) Jô.
04) Rara.

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

" Nossas vidas nao são tão diferentes embora a gente goste de achar que são. A dor é estranha. Um gato matando um passarinho, um acidente de carro, um incendio... A dor chega, BANG, e aí esta ela, instalada em voce. É real. Aos olhos dos outros, parece que voce esta de bobeira. Um IDIOTA de repente. Não há cura para dor, a menos que voce conheça alguem capaz de enteder seus sentimentos e saiba como ajudar."

-Charles Bukowski-

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

eu atiro! eu atiro!

Umas moedas por alguma emoção forte.
Uma pausa pro rosto que souber ficar.
Dançar a noite toda com um sorriso que me leve pra casa, mesmo que eu não peça.
Eu não estou indo embora assim sem motivos só porque eu não sei ficar, é porque eu já não vejo sentido em amassar suas cadeiras e acender as luzes.
Eu deveria comprar os jornais e ver a página de empregos, seria bom para todos.
Eu deveria parar de beber vodca de nove reais o copo.
Eu não deveria passar tanto tempo mostrando coisas que ele não quer ver.Palavras, divagações desnecessárias para um esportista.

Porque minha calcinha é bem mais interessante, ainda que tenha sido distração sua parição.
(Nem tão distraída, ok... Mas era só diversão duma garota triste.)

Foda-se o dilema do passar do tempo, das datas e dos nomes...
Foda-se boa parte dessa história, desse enredo sem perdão!
(Oh não! Era ressentimento...)

Bálsamo dos almodovares corações!
O Xico Sá vai pro inferno, ainda bem...Porque eu também vou.


Algumas moedas por uma noite com um pouco mais de cor.
Algumas moedas para engravidar de um olhar!



Passe essa arma pra cá!
O próximo tiro é meu.
Só meu...





Pó.

quarta-feira, dezembro 27, 2006

meu coração não quer deixar meu corpo descansar...

Uma Canção Desnaturada


Por que creceste, curuminha

Assim depressa, e estabanada
Saíste maquilada
Dentro do meu vestido
Se fosse permitido
Eu revertia o tempo
Pra reviver a tempo
De poder
Te ver as pernas bambas, curuminha
Batendo com a moleira
Te emporcalhando inteira
E eu te negar meu colo
Recuperar as noites, curuminha
Que atravessei em claro
Ignorar teu choro
E cuidar só de mim
Deixar-te arder em febre, curuminha
Cinquenta graus, tossir, bater o queixo
Vestir-te com desleixo
Tratar uma ama-seca
Quebrar tua boneca, curuminha
Raspar os teus cabelos
E ir te exibindo pelos
Botequins
Tornar azeite o leite
Do peito que mirraste
No chão que engatinhaste, salpicar
Mil cacos de vidro
Pelo cordão perdido
Te recolher pra sempre
À escuridão do ventre, curuminha
De onde não deverias
Nunca ter saído

(Chico Buarque)

quarta-feira, dezembro 06, 2006

repetição insignificante


" Entre as verdes folhas do avarandado
entre as velhas telhas do elho sobrado
entre as luzes dos faróis nas duas mãost
odo canto em que estou você está
Pelos campos entre a relva e a liberdade
entre as torres de concreto na cidade
na incerteza do universo em que estou
todo canto em que estou você está
O seu vulto me persegue
pelas noites mal dormidas
O primeiro pensamento da manhã
é você
As olheiras tão marcadas
minha voz rouca e cansada
O primeiro sentimento do amanhã
tem que ser você
O primeiro pensamento da manhã
O primeiro sentimento do amanhã "
(Zé Geraldo)

segunda-feira, novembro 20, 2006

doida doida doida!


Quando em teu colo deitei a cabeça, meu camarada, a confissão que fiz eu reafirmo,o que eu te disse e a céu aberto eu reafirmo: sei bem que sou inquieto e deixo os outros também assim, eu sei que minhas palavras são armas carregadas de perigo e de morte, pois eu enfrento a paz e a segurança e as leis mais enraizadas para as desenraizar, e por me haverem todos rejeitado mais resoluto soudo que jamais poderia chegar a ser se todos me aceitassem,eu não respeito e nunca respeitei experiência, conveniência, nem maiorias, nem o ridículo, e a ameaça do que chamam de inferno para mim nada é, ou muito pouco, meu camarada querido: eu confesso que o incitei a ir em frente comigo e que ainda o incito sem a mínima idéia de qual venha a ser o nosso destino ou se vamos sair vitoriosos ou totalmente sufocados e vencidos.
Walt Whitman (1819-1892)

sábado, novembro 11, 2006



Para a menina mais rara que cruzou meu caminho.






"Pela marca que nos deixa
A ausência de sol que emana das estrelas
Pela falta que nos faz
A nossa própria luz a nos orientar
Doido corpo que se move
É a solidão nos bares que a gente frequenta
Pela mágica do dia
Que independeria da gente pensar
Não me fale do seu medo
Eu conheço inteira sua fantasia
E é como se fosse pouca
E a tua alegria não fosse bastar
Quando eu não estiver por perto
Canta aquela música que a gente ria
É tudo que eu cantaria
E quando eu for embora, você cantará"

(Oswaldo Montenegro, Estrelas)

segunda-feira, outubro 23, 2006

e chega!

"Já passou, já passou
Se você quer saber
Eu já sarei, já curou
Me pegou de mal jeito
Mas não foi nada, estancou
Já passou, já passou
Se isso lhe dá prazer
Me machuquei, sim, supurou
Mas afaguei meu peito
E aliviou
Já falei, já passou
Faz-me rirHa ha ha
Você saracoteando
Daqui prá acolá
Na Barra, na farra
No forró forrado
Na Praça Mauá, sei lá
No Jardim de Alah
num clube de samba
Faz-me rir, faz-me engasgar
Me deixa catatônico
Com a perna bamba
Mas já passou, já passou
Recolha o seu sorriso
Meu amor, sua flor
Nem gaste o seu perfume
Por favor
Que esse filme
Já passou"

(Chico Buarque_Já passou)








E vê se me deixa em paz ...

terça-feira, outubro 03, 2006

Melodrama II

Eu já quis você assim pintando sorrisos em tudo que soa melancólico ou que envolva o silencio de quem já vai em mim.
Hoje meu amor eu já não quero mais você ou sua voz, eu não quero essa vontade de matar e de morrer quando você me olha e finge não ver tudo que eu sou.
Eu rondo tudo que temo e sempre caio; confessional, perdida no seu olhar.
Porque a minha saudade masturba sua ausência sem fazê-la gozar.
Eu não sou o que querem que eu seja e o que ando sendo não se parece com o que eu sou.
Eu acordo e procuro, procuro as verdades e as bobagens que nos unia, vejo meus olhos nos espelhos e me lembro o quanto somos iguais, e dói!
Depois de doer eu limpo o sangue e ah! os deuses sabem o quanto eu tentei te apagar daqui, tirar suas frases cravadas em meu peito, engolir essa fumaça; tragando todo o meu remorso.
Eu já quis você assim acreditando no que eu inventei, beijando a miséria das palavras que eu não falei, supondo meus passos; e não os cultuando como se só caminho a seguir fosse o que me resta agora.
Eu já quis sua mão embriagada, pousada na minha sanidade, eu já quis a cor das suas íris nas paredes do meu quarto.
Meu amor, eu já quis você como verso quer sangue, como domingo quer indiferença, quis como a solidão quis o outrora no jornal de hoje.
Não que não te queira mais, não que eu não te queira amar...
Não nos acredito mais, não bebo mais dos anseios e não cruzo minhas íris com as suas pra que não notes que tudo em mim grita seu nome e que a pancada que me destes nos olhos não os deixa fechar, nem sonhar.
Eu atiro no escuro e acerto em cheio qualquer bom agouro que ousava neste quarto entrar.
Existe sim aquela verdade que dizia mais alto tudo o que não queríamos ouvir, aquela que procurávamos ou não.
Eu sinto um peso maior sobre meus olhos, um tormento novo numa terra estrangeira, e ainda é tão difícil suprir com essa incerteza o que chamavas de boa intenção.
Por Amanda Cristina Carvalho numa noite de agosto qualquer de 2006.

Melodrama

Porque sobre meus olhos pesa essa resignação de te amar e desejar ver-te cada dia mais longe, cada dia mais meu; mesmo entre ruas longínquas; encostado em muros onde eu nunca escrevera meu nome, onde meus insetos nunca tentaram abrigo.
Por tanto tempo eu quis uma espécie de dádiva, de vento que dissesse alguma coisa doce, sempre sondando o medo que não foi meu; para tentar me manter aqui dentro do quarto, fazendo cortes e desenhando na minha alma que desonrada resolveu voltar pra mim.
É tão miserável essa condição de se comprimir num sorriso, de guardar o passado entre os dentes amarelos.
E essa nostalgia de borboleta, como de quem vive vinte e quatro horas e precisa abandonar as lembranças e dizer que era mesmo vida que escorria de seus olhos, quando não era.
Mas agora eu tenho uma nova miséria que aparece quando eu sinto o sangue descer a garganta, quando blasfemo da minha sorte e te vejo passar.
Por Amanda Cristina Carvalho em alguma noite de agosto de 2006.

sexta-feira, setembro 15, 2006

eu tive fora uns dias...


Por todas a esquinas saí um bicho grande e feio e corre atrás de mim, eu corro dele pra ele não ficar sem graça, mas não tenho medo.
Eu não tenho medo de nada.
“Agora me beija de verdade e ouve com atenção tudo que eu quis te dar...!”.
E tantas palavras me vêm a mente e eu só queria poder desenhar, por todas as minhas paredes, pra deixar marcado mais um dia em que você salvou minha vida sem que ninguém te dissesse do perigo, sem acreditar no perigo.
Você me anula o pensamento.
Mesmo que eu não entenda do que sinto e nunca vá entender.
Fica essa luz por entre os fios dos cabelos.
Eu tiro as folhas da minha roupa, caminho com calma e o bicho atravessa a rua: decepcionado.

quinta-feira, agosto 31, 2006

"Enquanto eu tiver a mim... e os meus vícios, acho que está tudo bem, enquanto não houver motivo, Deus deixa estar por aqui..... Apreciando um pouco mais, as imagens que se formam, nos cacos de vidro, pelo chão......... Enquanto eu tiver a mim... e um pouco deste vinho, não importará o destino dos seus pés..... eu cansei de seguir as mesmas pegadas, se elas nunca me levam pra onde eu quero ir................................................................... ............................................................................................................................................ e quer saber? sempre enxerguei coisas de mais... Dentro de você......... coisas que já não importa mais.....................................................mais..................................... enquanto eu tiver a mim e os meus vícios............................. eu não preciso de ninguém............................ eu não preciso de você...... eu não preciso............................................................ eu não preciso................................................"

terça-feira, agosto 29, 2006

lá lá lá...

" Porque eu me imaginava mais forte. Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil. É porque eu não quis o amor solene, sem compreender que a solenidade ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda. E é também porque sempre fui de brigar muito, meu modo é brigando. É porque sempre tento chegar pelo meu modo. É porque ainda não sei ceder. É porque no fundo eu queria amar o que eu amaria - e não o que é. É também porque eu me ofendo a toa. É porque talvez eu precise que me digam com brutalidade, pois sou muito teimosa. É porque sou muito possessiva e então me foi perguntado com alguma ironia se eu também queria o rato para mim.Talvez eu me ache delicada demais apenas porque não cometi os meus crimes. Só porque contive os meus crimes, eu me acho de amor inocente.Talvez eu tenha que chamar de "mundo"esse meu modo de ser um pouco de tudo. Eu, que sem nem ao menos ter me percorrido toda, já escolhi amar o meu contrário(...). Eu que jamais me habituarei a mim, estava querendo que o mundo não me escandalizasse. Porque eu, que de mim só consegui foi me submeter a mim mesma, pois sou tão mais inexorável do que eu, eu estava querendo me compensar de mim mesma com uma terra menos violenta que eu."(Clarice Lispector)

quarta-feira, agosto 16, 2006

oh!

"Eu te odeio", disse ela para um homem cujo crime único era o de não amá-la.
"Eu te odeio" disse muito apressada.
Mas não sabia sequer como fazia.

C. Lispector

domingo, agosto 13, 2006

Necessidade de auto-afirmação?

"(...)E vem você
Me olha através da cortina do tempo
Me pega sentado no palco da vida
Tão fraco e indefeso
Marcas desse nosso tempo
E vem você
Que faz do meu canto um canto de paz
E eu tão tapado coitado até penso
Que o meu Negro Blues
é folclore de Minas Gerais "


Como já dizia minha mãe: "Filha você é estranha, não se pode passar a vida assim; vendo ela passar, esperando sabe lá o quê...".
Ela não entende, eu não entendo.
É tão trivial esse assunto que eu o desprezo, odeio os clichês e as trivialidades.
Eu queria escrever sobre a Amanda Cristina Carvalho hoje, mas eu nunca sei em que discurso eu fico; direto ou indireto.Em qual sujeito me classifico, simples, composto ou oculto.
Hoje é dia dos pais.
Estou neutra aos meus sentimentos, e contendo meus pensamentos que são mais bizarros e surrealistas do que um filme de Buñuel.
Eu sinto que estou sempre alimentando os mesmos cães que me feriram.
Eu sinto, sei, penso.
Mas não saio daqui.
Eu sempre fico pra ver o final, mesmo que ele for eu nua e exposta em praça pública pra toda e qualquer chance de me camuflar na minha arrogância se perder, tão precisa quanto um tiro.
Eu só funciono assim, quando eu já disse e fiz tudo que podia e o que não podia.
Arredia e patética num limite de bomsensopseudoliterário.
Já percebi como as pessoas reagem a um murro, sem precisar sujar minhas mãos!
É pra falar de medo, a gente fala de medo, mas se é pra inspirar coragem, eu tiro os sapatos e piso nas pedras, me corto na lâmina da impressão.
Mas eu caio e passo meus anos no tapete verde do mundo que é só meu, observando a vida lá fora.
Eu estou me sentindo de outra espécie, eu já não peço explicação.
Arrebenta essa corda quem tiver coragem e vem aqui me dizer quem eu sou quando eu faço tudo e todos virar contradição.
Se eu incomodo é porque existo, é porque sou de verdade.
É real quando eu tropeço pelas ruas com as lágrimas nos olhos e os gritos deixados em algum outro olhar se tornam apenas ecos do que eu sentia.
É real mesmo que por engano, por doses de mágoas* a mais. É pra me ver morrer mesmo.Mas sem o peso do amor -em vias erradas- pra quando eu for ressucitar.



sábado, agosto 12, 2006

Dos três mal amados

O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato
O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço
O amor comeu meus cartões de visita,
o amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome
O amor comeu minhas roupas, meus lenços e minhas camisas,
O amor comeu metros e metros de gravatas
O amor comeu a medida de meus ternos,
o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus
O amor comeu minha altura, meu peso,
a cor de meus olhos e de meus cabelos
O amor comeu minha paz e minha guerra,
meu dia e minha noite,
meu inverno e meu verão
Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.

(Lirinha)

sexta-feira, agosto 11, 2006

torneira aberta.

"(...) Eu... A andorinha
contou que,
sozinha, canta, mas não faz verão.
Tem boi na linha.É o mesmo trem, a mesma estação.
Resumindo: -Até logo, eu vou indo.
Que é que estou fazendo aqui?
Quero outro jogo,
que este é fogo de engolir. "
(Belchior_Depois das seis)



-Dá pra ouvir daí?
Não, não, é mais embaixo.
Isso, bem aí.
Pega esse pedacinho do meu coração pra mim e manda ele parar de cantar Tom Waits.
Já não basta os outros que declamam Florbela Espanca bem ás cinco da manhã.
Estou tentando juntar todos e calar os risos das paredes do meu quarto que ironizam alegres as noites que passei longe.Vou reunir todos os pedaços e ter de volta meu coração.
"Toda caixa guarda alguma coisa, mesmo que o vazio, mesmo que o silêncio de um morto."
Ah!
Todos os clichês são válidos porque toda a poesia não bastou.
Como duas pessoas tão iguais podem se tornar tão distintas quando é preciso deixar tudo pra trás?

sábado, agosto 05, 2006

como antigamente...

Entre o autor e o público, posta-se o intermediário.
E o gosto do intermediário é bastante intermédio, medíocre.
Medianeiros médios pululam nos meios, onde, galopando, teu pensamento chega.
Um deles considera tudo sonolento:
"sou homem de outra têmpera! perdão", e repete um só refrão:
"O público não compreenderá".
Camponês, só viu um faz tempo, antes da guerra.
Operários, deu com dois, uma vez, numa ponte, vendo subir a água da enchente.
Mas diz que os conhece como a palma da mão.
Que sabe tudo o que querem!Aqui vai meu aparte: chega de chuchotar bobagens para os pobres. Também eles, podem compreender a arte.
Logo, que se eleve a cultura do povo! Uma só, para todos.
(Maiakovski)

quarta-feira, agosto 02, 2006

Frases soltas (ao seu gosto honey)

Tantas mentiras.
Tantas vontades.
Lembrança que corre com um pedaço de giz marcando a parede da minha sanidade.
Faz frio aqui, e eu gosto desse frio quando ele parece comer minhas entranhas de forma carinhosa e simpática.
É tão bom quando algo nos come de forma carinhosa e simpática, mesmo que seja somente o frio.
Precisamos ser comidos, é antropofagia sã que nos move na maioria das vezes.
Eu estou com medo.
Medo do meu medo não caber mais dentro de mim.Medo de não caber mais naquela cidade, medo de acordar sempre cedo, medo de não dormir mais, medo de ver que a culpa sempre foi minha e que eu estava mesmo correndo pro lado errado quando eu jurei que era mesmo pra lá que eu tinha que ir...
Eu não quero mais essas frases soltas via e-mail, eu não quero mais esse tormento na minha caixa de entrada, porque eu realmente o amo, e esse tempo e distância parece anacrônico ao que nos fazia ser apenas duas almas que se entendiam, pai e filha!
Odeio me sentir como um peixe pescado, já disse isso certa vez.
Preciso do outro lado da lua, não desse que é permitido ver.
Preciso do outro lado da rua, aquele em que te deixei e fui cortar minhas asas pra voarmos somente com as suas...
Mas as suas eram roubadas...
Eu odeio tanto ter que te odiar pra continuar amando ao que me resta.
“Ódio é que nem escrito, só envelhece”.
Eu não sei ser quem eu era pra te alegrar.
Eu não sei alegrar mais ninguém.
Eu queria fugir, mas nem lá no meu refúgio eu tenho mais paz.
Estão roubando o que eu tenho de melhor e guardando numa caixa de plástico (e tanto que eu odeio plástico!).
Não faz sentido o sentir que me sentia entrar seis e pouco da manhã no quarto quente: o sono que engolia a alma.
Ta aí, mas alguma coisa comida.Mais alguma coisa roubada.
A saudade já não me tem o mesmo efeito, acho que perdeu o lirismo com o tempo que me fez perder algumas outras coisas que não podiam ter sido perdidas.
Não quero mais ninguém por perto por hoje.
Eu precisava dessa paz que me levaram, eu precisava daquele dinheiro ao qual me privaram.
Não era nada disso que eu queria escrever.
Não era nada disso que eu queria sentir.
Não era de ti que eu queria lembrar.
Não era essa dor que eu queria celebrar.
Não era essa cidade que eu queria nomear.
Não era esse verme que eu queria pra comer meu cadáver ainda vivo.
Não era desse pássaro que eu queria retirar a asa pra te dar e te ver voar pra bem longe de mim.
Não era com esses olhos que eu queria te reencontrar.
Não, não era!
Juro por todos os fenecidos que não era...

terça-feira, agosto 01, 2006

depois das cinco...




"Da primeira vez..."
Mário Quintana

Da vez primeira em que me assassinaram
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha...
Depois, a cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha...

Hoje, dos meus cadáveres eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada...
Arde um toco de vela amarelada...
Como único bem que me ficou!

Vinde, corvos, chacais, ladrões da estrada!
Pois dessa mão avaramente adunca,
Não haverão de arrancar a luz sagrada!

Aves da Noite! Asas do Horror! Voejai!
Que a luz, trêmula e triste como um ai,
A luz de um morto não se apaga nunca!

quarta-feira, julho 26, 2006

"A chuva engorda o barro e dá de beber aos mortos."

Começo a acreditar.
Acreditar é estranho quando nunca se acreditou em nada.
Mas não acredito assim com essa fé forçada e vomitada, nem sei mesmo se acredito.
Acho que não acredito mesmo.
Não acredito em você, pássaro de asas roubadas, não acredito no jornal, nem tão pouco no Drummond:
"Figurinha esquisita essa aí, não!? Menina que não sabe sorrir e dorme pelos cantos...", diria ele.
Mas pouco importa agora quem quebrou o vaso, quem sujou o tapete ou quem disse eu te amo primeiro.
"Alguém disse eu te amo?"
Como diria o Cheisquesper, muito barulho por nada!!!
Passa.
Vaza.
Escapa de mim.
...

terça-feira, julho 25, 2006

PORQUE DOEU UM BOCADO...




















A Fé Solúvel
O Teatro Mágico
Composição: Fernando Anitelli


É, me esqueci da luz da cozinha acesa
de fechar a geladeira
De limpar os pés,
Me esqueci Jesus!
De anotar os recados
Todas janelas abertas,
onde eu guardei a fé... em nós
Meu café em pó solúvel
Minha fé deu nó
Minha fé em pó solúvel
É... meu computador
Apagou minha memória
Meus textos da madrugada
Tudo o que eu já salvei
E o tanto que eu vou salvar
Das conversas sem pressa
Das mais bonitas mentiras
Hoje eu não vivo só... em paz
Hoje eu vivo em paz sozinho
Muitos passarão
Outros tantos passarinho
Que o teu afeto me afetou é fato
Agora faça me um favor
Um favor... por favor
A razão é como uma equação
De matemática... tira a prática
De sermos... um pouco mais de nós!
Que o teu afeto me afetou é fato
Agora faça me um favor
Um favor... por favor

"Every time I see you falling
I get down on my knees and pray
I'm waiting for that final moment
You'll say the words that I can't say"











HOJE EU NÃO VIVO SÓ EM PAZ!

domingo, julho 09, 2006

.comida pra rato.

O Frio Especial


O frio especial das manhãs de viagem,
A angústia da partida, carnal no arrepanhar
Que vai do coração à pele,
Que chora virtualmente embora alegre.


Álvaro de Campos

segunda-feira, julho 03, 2006

Colheita

Cores turvas no espelho,
a colheita dos meses frios,
e o amor que tarda e vinga cortando os dedos.
Pensas mesmo que termina em febre sem chaga essa doença que nos consome?
Suores noturnos: insone a tentar ressuscitar-me,
e dispensas o doutor louco em fúria
que sabe da temperança e da tormenta que nos comove,
e bem sei que comeu com mel minha petulância.
E eu escapo de ti com lágrimas entre os vícios tortos;
minha salmoura contra a dor de nunca poder (querer) voltar,
e era tudo por você até você não mais precisar (sangrar).
Conhece o édito e a perdição,
cada espada e cada lençol,
a solidão agora é hino queimado entre seus beijos que só me diziam adeus...
Segues pelos campos cinzas,
e deixastes cair um pincel, um tempo, um sol,
deixou cair qualquer vestígio de vida que depois das onze fosse me buscar,
mas não, não volta e não fere mais,
economiza os passos...
Faz retalhos nos olhos,
esquece as feridas que o vento secar,
já que dessa vez minha lágrima e saliva não vão bastar.
Cores claras na memória,
lembrar é tão doce que em demasia leva ao desgaste e ao hábito pedante,
por isso me esqueço tanto quando me lembro,
o mundo metade é lembrança e a outra metade invenção,
ninguém vive o que pensa,
e se lembra pensa apenas o que sente: condição!
Amar: ação gritante da danação,
eu e você,
num inferno tão nosso,
que como nossa harmonia
também vão nos cobrar...

Amanda Cristina Carvalho
3/7/06.

terça-feira, junho 27, 2006

analgésicos ou Drummond?

Hoje me deu vontade de pintar um céu de verde, uma parede de preto, vontade cortar os cabelos, punir os opressores da minha solidão em tédio ao mundo.
Vontade estranha de ficar parada na frente do órgão publico mais próximo até que alguém me perguntasse alguma coisa.
Hoje eu não li, hoje eu não consegui pensar em ninguém, nem mesmo nele, sequer pensei em mim.
Sangrando o grande mal do gênero feminino.
Úteros, ovários, trompas, por que vocês existem?
Ah!
Cansada do que é simples, do que é obvio, do que é certo, do que é impossível.
Cansada de ver a vida passando, e cansada de só conseguir pensar em clichês azuis como os olhos que fascinam nas quartas feiras.
Só mais uma vida, só mais uma contradição.
Uma paixão estranha que não sabe ser e nem ficar, e ela vai embora, que as flores estejam na estrada e tenha um blues soando no ar, eu não vou impedir, vá!
Esvaziando-me pra ver o que vai ficar...
Talvez saudade, talvez um sorriso, ausência de lamentos já me bastaria.
Poesia é matéria de lembrança, nunca vale enquanto o que se escreve ainda faz presente.
Não deve doer tanto ser um museu...
Não deve doer tanto vê-la ir...
E se doer agente compra um analgésico ou um livro do Drummond.
Ah!
Alguma coisa deve amenizar...

por Amanda...

segunda-feira, junho 26, 2006

depois das seis...

Para poder morrer
Guardo insultos e agulhas
Entre as sedas do luto.
para poder morrer
desarmo as armadilhas
me estendo entre as paredes derruídas.
para poder morrer
visto as cambraias
e apascento os olhos para novas vidas.
para poder morrer
apetecida me cubro de promessas da memória.
porque assim é preciso para que tu vivas.

H. Hilst

sexta-feira, junho 23, 2006

Dez lamúrias por gole

Isto é só um copo eu não bebi demais
Achei que era diferente e são todas iguais
Escrevi canções sobre ela mil noites sem fim
Deixou-me neste bar a cantá-las pra mim
Doce uuu uuuuuu uuuuu
Eu bebo da garrafa tomo o gin de manhã
Se o Príncipe era um sapo
ela devia ser rã
Eu amo quem eu sei que não me vai amar
Mas só assim me dá vontade de cantar
Doce uuu uuuuuu uuuuu
A dor existe e não dá pra esquecer
O peito insiste e não a deixa morrer
E eu não vou deixar-me beber como gin
E para estar sóbrio não basta só pensar em mim
Oh não
Deus não era isto que eu queria ser
O que me deixa mal
o que me faz viver
Sinto a roupa fria e o corpo dorido
Sinto o cheiro a vinho mesmo sem ter bebido
Nada Uuu uuuuuu uuuuu
Isto é só um copo a boca já me arde
Um homem varre o chão e diz que já é tarde
Senhor só bonne voyage é hora de fechar
E a Lua é mulher que hoje vou abraçar
Doce uuu uuuuuu uuuuu
A dor existe e não dá pra esquecer
O peito insiste e não a deixa morrer
E eu não vou deixar-me beber como gin
E para estar sóbrio não basta só pensar em mim
E eu não vou deixar-me beber como gin

(ortanis violeta)

quarta-feira, junho 21, 2006

Foda-se o que sei e o que eu te ensinei =[

O Gênio Incompreendido




eu sou só mais um gênio
perdido entre os livros da biblioteca pública
que você gosta de ter ao lado
pra se sentir madura
pra se sentir segura
da confusão

eu sou só mais um homem culto e divertido
que você sempre vai levar pros bares pra impressionar amigos
pra se sentir madura
eu sou somente a armadura
na escuridão

pena que nada disso importa
porque eu quero ser o homem que você deseja
quando toma banho
ou quando se masturba
eu quero ser o corpo que você almeja
quando está com fome
ou quando está insone
foda-se o que eu sei
e o que eu te ensinei




eu sou só mais um
por que você vem me chamar?


(Violins)

terça-feira, junho 13, 2006

Nunca mais a cidade, nunca mais você

Sempre que surgia com suas cores e suas vidas enlaçadas - fazendo miséria no intervalo do ser e o esquecer-; a paixão ia tomando a paisagem disfarçada de perfeição.
A menina baixou a guarda, engoliu seu último pedido de clemência para a noite que só fez travestir de luz um olhar - que hoje eu sei - era somente escuridão.
Deixou de ser petulante, perdeu sua arrogância enquanto aquele ser costurava suas iniciais no seu peito aberto; escancarado pra toda aquela sensação de dor tão pungente que trazia seu fim em si mesma; por simplesmente fazê-la sorrir...
E foram tantos os sorrisos, palavras e saliva que ela pensou acumular na alma dele por trazer vigor em estar...
Era uma cidade imensa, tão grande que cabia dentro dela, pobre menina que carregou dentro de si uma cidade engrandecida (com luzes, ratos e cantores de blues taciturnos) por pensar que estaria carregando ele também (como uma raposa que adota cães alimentando com seu leite e sangue tudo que neles faltar); ele e toda aquela agonia quase irritante que sentia ao vê-lo rir da sua falta de paciência com tudo que respirava sem o mínimo de graça perto dela.
No entanto, ele - o menino da língua grande que roubava as estrelas do céu da boca dela, o menino dos olhos (negros) dela - não vivia na cidade que ela engoliu; ele não tinha tempo, não tinha vocação (a maldade nata do sexo masculino quando pensa se unificar com outro exemplar dessa espécie menor), ele não queria e nem podia ficar na cidade engolida pela menina...
Sina? Contradição dos deuses? Ingratidão dos ventos que só nos tocam e se vão? Ou dos que traziam as folhas do lado de lá?
Eu não sei! Eu nunca sei...
Mas não valeu mesmo o desenrolar dos cabelos, não adiantou nem mesmo o desenho e a poesia em linhas tortas, não se fez válida sequer a sinceridade -matéria prima- de cada gesto novo da menina.
Agora correndo entre as mais novas formas de vida, entre os mais caros sorrisos perfeitos, entre as imagens mais superficialmente belas; a menina enfia um resto de estrela garganta a baixo forçando um vômito dolorido, mas é inútil, esse corpo estranho que é a cidade já se perdeu dentro dela, assim como perdidas ficaram todas aquelas chances e olhares que complementaram o outro num vão que parecia terno.
Tudo precisa ser vomitado, mesmo que se perca a bile, mesmo que se perca a si mesmo num gesto bruto de quem descobriu que nunca nada no mundo foi feito pensando em você.

Por Amanda Cristina Carvalho em algum dia de junho de 2006.

A uma passante

A rua ensurdecedora urrava ao meu redor
Alta e esbelta, toda de luto, majestosa na dor,
Uma mulher passou, a mão vaidosa
Erguendo, balançando a bainha e o festão.

Ágil e nobre, com pernas de estátua.
Eu, crispado como um extravagante, bebia
No seu olho, lívido céu que gera o furacão,
A doçura que fascina e o prazer que mata.

Um clarão... e a noite depois! - Fugidia beleza,
De olhar que me fez renascer,
Será que só te verei de novo na eternidade?

Tão longe daqui! Tão tarde! Talvez nunca!
Pois ignoro para onde vais e não sabes para onde vou.
Ó tu que eu teria amado, ó tu que sabias disso.

(Charles Baudelaire)

sexta-feira, junho 09, 2006

AVANTESMAS...

Destruição

Os amantes se amam cruelmente
e com se amarem tanto não se vêem.
Um se beija no outro, refletido.
Dois amantes que são? Dois inimigos.

Amantes são meninos estragados
pelo mimo de amar: e não percebem
quanto se pulverizam no enlaçar-se,
e como o que era mundo volve a nada.

Nada. Ninguém. Amor, puro fantasma
que os passeia de leve, assim a cobra
se imprime na lembrança de seu trilho.

E eles quedam mordidos para sempre.
deixaram de existir, mas o existido
continua a doer eternamente.

(Carlos Drummond de Andrade)

segunda-feira, maio 29, 2006

...

O milagre da desintegração

E coma todas essas chances patéticas de ser um sol em meio a tanto cinza de maio.
Chegou da festa e não teve uma máscara para despir; para limpar a lama, como todos lá tinham.
Nunca usara máscaras, nunca ofuscara nenhum sorriso com a sombra negra que todo ser mascarado produz.
Julgou ser amor (amizade em pétalas) as lágrimas em seus olhos: “desculpa eu não me recordava de seu rosto; deixou sua máscara no carro?” - nesse céu aberto se ironiza tudo mesmo.
Não desce a vida, ou a voz da noite para limpar essas feridas abertas, ou nem mesmo o ser maior que as lamberia como quem vê a face do pai num túmulo aberto e fecha docemente os olhos da parte morta no cosmo mundano, que é a mais viva e munida de vigor existente dentro desse ser maior (por hora menor).
Não é venial ver essas muralhas feitas com meus pedaços mais vitais ruírem sem a vênia do meu coração (palhabote fugitivo quando você precisou).
A noite esconde as eivas do meu mundo e as imperfeições do meu rosto borrado com restos de lembranças frigidas, como um escrínio vazio.
Mas eu sou como o meu gato que vê a decadência e a beleza de me sentir caída em lágrimas (três xícaras de chá e fumaça escorrendo do meu sorriso); sou como meu gato que pode saltar alto e se limita a dormir no tapete (a virtude e a desventura de possuir o dom mesmo que enfraquecido e apenas desejar a eclesiástica salvação!).
Engula a seco meu olhar de miséria, com as íris cercadas de desprezo, engula meu sangue frio que esse adeus camuflado de “ate logo” fará ocultar.
Pensando bem...Não precisa engolir, não precisa me tragar e exalar minhas cinzas...
Eu nunca vou caber em ti porque você sobra em mim!
Ah, a vida é ato breve, as lutas são tão cavas de sentido quando um suspenso corpo livre sem luta marcada nas costas nos pergunta: quando o sol for uma estrela menor e tão antiga como as outras o que será que vai nos mover (?).
Porém, é sé literatura!
Nada mais que essa regra sem legitimação, nada mais que pedaços meus depositados em linhas...
É só literatura: minha pretensão solitária.
“O mundo está acabando e ninguém vai perceber; as flores e os vasos, seus medos, meus laços em desalento... No desperdício de alma que é amar...” –sei que não é um sonho, nem poderia me acordar.
Eu e o Chico entregamos os pontos amor...

Por Amanda Cristina carvalho em vinte e oito de maio de dois mil e seis.

sábado, maio 27, 2006

.......meus finais felizes evitados

"Minha miséria tem aproveitado a companhia
e embora eu sinta dor
eu não ameaço ninguém
Às vezes eu me sinto maior do que o que eu tenho compartilhado com você
Às vezes eu me pergunto porque eu reprimo quando não sou requerida para
Eu tentei ser pequena
eu tentei ser reduzida
Eu tentei bloqueos e tudo mais
meus finais felizes evitados
Às vezes eu sinto isso é muito importante para ser verdade
Eu sabotei a mim mesma pelo medo do que minha grandeza poderia causar
Medo da felicidade e medo alegria
Medo de ser importante e consequente solidez
Eu poderia ser dourada eu poderia ser brilhante
eu poderia ser liberdade
mas isto seria entediante
Às vezes eu sinto isto é tão assustador para ser verdade
Eu sabotei a mim mesma por medo de perder você
Medo da felicidade e medo de alegria
Medo de ser importante e consequente solidez
Essa conversa de liberação me faz querer ir deitar
debaixo da coberta até que o terror do desconhecido tenha ido
Eu poderia ser completa
eu poderia ser próspera
eu poderia ser reluzente
parece isolador
Às vezes eu sinto isso é muito bom para ser verdade
Eu saboto a mim mesma por medo do que minha felicidade poderia causar.
Medo da felicidade e medo de ficar feliz
Medo de ser importante e consequente solidez"
(Alanis Morissette)

sexta-feira, maio 26, 2006

Por favor meu ego não dê força ao prego que nos põe contra a parede...


As flores do jardim da nossa casa,
Morreram todas, de saudades de você,
E as rosas que cobriam nossa estrada,
Perderam a vontade de viver,
Eu já não posso mais,
Olhar nosso jardim,
Lá não existem flores,
Tudo morreu pra mim,
As coisas, que eram nossas se acabaram,
Tristeza e solidão, é o que restou,
As luzes das estrelas se apagaram,
E o inverno da saudade, começou,
As nuvens brancas, escureceram,
E o nosso céu azul, se transformou,
O vento, carregou todas as flores,
E em nós, a tempestade, desabou!
Mas não faz mal, depois que a chuva cair,
Outro jardim,
um dia há de reflorir!
(Roberto Carlos e Erasmo Carlos)

terça-feira, maio 23, 2006

Noite de um único verso

(ao doce menininho)

Você destrói o mundo com poesia, eu compro o mundo com compaixão.
Você revive tudo aquilo que eu feneço com um sorriso cru, irritante (o raspar das unhas nos vidros).
As luzes que nos tocam sem dor; sem bolinar nossos olhos, anunciam que nos encontramos e que toda a miséria eterna do mundo não vai nos humilhar quando você o punir com sua poesia e eu recolher seus versos -extasiados de glória- com a minha compaixão.
Agonia da força na extremidade do seu olhar no meu, pra todo arco-íris que nascer na sua ausência.
Rompi o hímen da minha alma e te desenhei na minha falta de pudor ao te encontrar e sorrir.
Nunca pensei em me encontrar numa desordem de sentir, espera essa chuva molhar meu passado e me cala com sua língua no meu pescoço –pulsando quente tanto quanto minhas artérias que até então eram frias e inertes-.

Por Amanda Cristina Carvalho22/4/06.

sexta-feira, maio 12, 2006

Conto de fodas

Se você deseja mesmo ir vá...Seus passos tão simples e a sua presença chegando em passos lentos; derramados na minha memória e na minha solidão eventual.
Conte tudo o que houve em letras grandes aos deuses antes de adormecer; e eu sei que também é vida o que ousar cair de meus olhos numa futura manhã.
Fadas e encontros de almas só acontecem quando os olhos se fecham e você não deseja que seu desejo se realize, mas que o seu destino deixe de ser uma profecia blasfemada e se torne o instante, o agora que não é que você sonhou, mas o que você precisava e não sabia.
Durma em paz; não na paz do meu amor que não existe, mas na paz de estar deixando meu reino; mesmo que a primavera tardia esteja em vigor.Meu jardim floresce, minha fonte seca e as luzes acendem, me encontrando num trono vazio e com o sorriso mais verdadeiro desse lado do planeta.
Vá em paz, mesmo que ela seja falsa, esqueça os dragões que você teve que enfrentar para estar comigo.A maldição foi desfeita; agora são todos borboletas, eu voltei a ser um sapo e não adianta mais me beijar.
Por Amanda Cristina Carvalho em maio de 2006.

quinta-feira, maio 11, 2006

como diz essa forma geométrica chamada palavra...

(...)
Não queria acumular você em meus braços, mas não me acomodo quando penso que você está apenas de passagem; quero uma lembrança que ainda não tenho, daquela música, daquela opinião, e acumulo tudo isso em uma mesma memória.
(...)

terça-feira, maio 09, 2006

poema de e-cummings

this little huge
-eyed per-
son(nea
-rly burs-
ting with the
in
-expressib-
le
num
-berlessn-
ess of her
selves)can't
u
-nderstan-
d my o
-nl-
y me
esta criancinha de
-olhos esbugal-
hados(qua
-se explod-
indo com a
in
-exprimív-
el
in
-umerosid-
ade de seus
euses) não pode
c
-ompreend-
er meu a
-pena-
s mim
trad. Carlos Loria
in revista Dimensão nº 28/29, 1999, p. 187.

segunda-feira, maio 08, 2006

Feliz Aniversário Veridiana...


O fruto da lascívia da borboleta que não morreu (dessa vez) em vinte e quatro horas

Eu invento a minha própria pílula,
ela não corrói meu estômago,
e nem trás náuseas aos meus protestos de voltar a pensar.
Minha pílula você não consome com todos esses vermes no olhar,
com essa mão fechada,
esse punho tardando o tapa,
e me cuspindo demente indignação.
A alma é livre,
e o corpo que rola e esfola a moral de velhos movimentos também ,
é tudo a escolha, a folha e a bolha
que salta dos meus olhos: bolinando tudo com inocência,
e roubando sem pudor qualquer coisa de você.
Eu invento a minha própria poesia,
a luz que acorda a chama antiga em versos,
eu faço e vendo minhas palavras,
e alegoria dispensável não é a confiança;
silêncio de noites que não rimam.
Eu invento a meu próprio show,
não preciso de talco, palco, de iluminação; chamas frias,
eu faço meu roteiro e minha fala nunca vai ser o que você quer ouvir.
A minha vida eu mesma invento,
reinvento você no intervalo em que eu não souber mais o que inventar,
supro, nutro seus passos que te levam daqui,
meu sorriso é a nave, a chave;
a clave de sol aberto,vivo no nosso jardim.
Meu contorno nas suas palavras;
isso eu não invento,
vento e chovo em você,
passo, largo, escapo por seus dedos;
e tento perceber pra onde esse vão me leva.
E se eu sustento o vôo desse pássaro que tem asa no seu sorriso,
é porque eu nunca vou me encontrar numa sexta feira,
nunca vou deixar a fumaça e essa garoa só por te animar,
e se você não me conhece,
é melhor nem tentar me roubar...
Sou a carta marcada,
a invenção de quem em vida só fez inventar,
vou sempre reinventar curas e fontes da juventude
pra toda lágrima que vadia do meu rosto rolar.
Se a gente não for a própria poesia;
não adianta mesmo tentar inventar,
o amor, a cor do medo,
tudo isso só vinga se você souber olhar,
eu olho e te vejo;
a esfinge é estrangeira,
mas eu entendo a fagulha semi-viva;
é seu medo de não conseguir me reinventar!
Por Amanda Cristina Carvalho em 7 de maio de 2006.

sexta-feira, maio 05, 2006

lamúrias...


"Agora eu durmo tarde
E acordo tarde
E as tardes são assim
Pra mim manhãs
Que passam em velocidade
E ardem como o sol
Que arde
A madrugada inteira
Eu abro os olhos
Eu olho as horas
Eu molho os óculos
E ainda é agora
Eu cato conchas na geladeira
Eu conto estrelas
Depois que o dia nasce
Será tarde?"
(Adriana Calcanhotto)

Já se sentiu como um peixe que acaba de ser pescado?
Os olhos do pescador te engolindo, vendo que tipo de peixe você é, que tipo de lucro você dá...
Odeio essa coisa de ser analisada, de ter que mostrar quem eu sou, mesmo que valha algo em troca.
Eu não sou mais que o que imaginaram pra mim, eu sou bem menos que o que quis ser, mas sou e isso nunca me basta.
Penso em versos e acordos em dó menor.
Queria gostar dela e esquecer o medo, mas eu nunca sei o que estou tentando dizer que quero, quando na verdade, o que mais queria é que tudo que eu quis fosse um desejo dela também.
Mas nunca vai ser mais que um desejo meu, que por vezes se faz tão surreal e patético que eu o esqueço em qualquer canto pra fingir que não é mais meu.
E ainda tem os patos, as estradas e as pestes das crianças que insistem em fazer barulho na rua, como se toda aquela alegria que exalam tivesse passagem livre pela minha janela.
Não reparem esse mau humor de recém desempregado que não encontra emprego em canto algum.
Não reparem nessa frustração pós ensino médio de quem não passou no vestibular e ainda não foi mais do que o que esperavam.
Não reparem nessa má literatura que nada diz e nada muda, é apenas mais um dia pra quem acorda e não encontra o que deixou no lugar de sempre e que nunca está lá quando se procura!

quinta-feira, maio 04, 2006

tua ausência fazendo silêncio em todo lugar...


O Anjo Mais Velho
O Teatro Mágico
Composição: Fernando Anitelli

O dia mente a cor da noite
E o diamante a cor dos olhos
Os olhos mentem dia e noite a dor da gente
"Enquanto houver você do outro lado
Aqui do outro eu consigo me orientar
A cena repete a cena se inverte
enchendo a minha alma d'aquilo que outrora eu deixei de acreditar
tua palavra,
tua história
tua verdade fazendo escola
e tua ausência fazendo silêncio em todo lugar
metade de mim
agora é assim
de um lado a poesia o verbo a saudade
do outro a luta, a força e a coragem pra chegar no fime o fim é belo incerto...
depende de como você vê
o novo, o credo, a fé que você deposita em você e só
Só enquanto eu respirar
Vou me lembrar de você

quarta-feira, maio 03, 2006

Manifesto Utópico-Ecológico em Defesa da Poesia & do Delírio


De Roberto Piva,

Invocação

Ao Grande deus Dagon de olhos de fogo, ao deus da vegetação Dionisos, ao deus Puer que hipnotiza o Universo com seu ânus de diamante, ao deus Escorpião atravessando a cabeça do Anjo, ao deus Luper que desafiou as galáxias roedoras, a Baal deus da pedra negra, a Xangô deus-caralho fecundador da Tempestade.
Eu defendo o direito de todo ser Humano ao Pão & à Poesia. Estamos sendo destruídos em nosso núcleo biológico, nosso espaço vital & dos animais está reduzido a proporções ínfimas quero dizer que o torniquete da civilização está provocando dor no corpo & baba histérica o delírio foi afastado da Teoria do Conhecimento & nossas escolas estão atrasadas pelo menos cem anos em relação às últimas descobertas científicas no campo da física, biologia, astronomia, linguagem, pesquisa espacial, religião, ecologia, poesia-cósmica, etc., provocando abandono das escolas no vício de linguagem & perda de tempo em currículos de adestramento, onde nunca ninguém vai estudar Einstein, Gerard de Nerval, Nietzsche, Gilberto Freyre, J. Rostand, Fourier, W. Heinsenberg, Paul Goodman, Virgílio, Murilo Mendes, Max Born, Sousandrade, Hynek, G. Benn, Barthes, Robert Sheckley, Rimbaud, Raymond Roussel, Leopardi, Trakl, Rajneesh, Catulo, Crevel, São Francisco, Vico, Darwin, Blake, Blavatsky, Krucënych, Joyce, Reverdy, Villon, Novalis, Marinetti, Heidegger & Jacob Boehme & por essa razão a escola se coagulou em Galinheiro onde se choca a histeria, o torcicolo & repressão sexual, não existindo mais saída a não ser fechá-la & transformá-la em Cinema onde crianças & adolescentes sigam de novo as pegadas da Fantasia com muita bolinação no escuro.
Os partidos políticos brasileiros não têm nenhuma preocupação em trazer a UTOPIA para o quotidiano. Por isso em nome da saúde mental das novas gerações eu reivindico o seguinte:
1 - Transformar a Praça da Sé em horta coletiva & pública.
2 - Distribuir obras dos poetas brasileiros entre os garotos (as) da Febem, únicos capazes de transformar a violência & angústia de suas almas em música das esferas.
3 - Saunas para o povo.
4 - Construção urgente de mictórios públicos (existem pouquíssimos, o que prova que nossos políticos nunca andam a Pé ) & espelhos.
5 - Fazer da Onça (pintada, preta & suçuarana) o Totem da nacionalidade. Organizar grupos de Proteção à Onça em seu habitat natural. Devolver as onças que vivem trançadas em zoológicos às florestas. Abertura de inscrições para voluntários que queiram se comunicar telepaticamente com as onças para sabermos de suas reais dificuldades. Desta maneira as onças poderiam passar uma temporada de 2 semanas entre os homens & nesse período poderiam servir de guias & professores na orientação das crianças cegas.
6 - Criação de uma política eficiente & com grande informação ao público em relação aos Discos-Voadores. Formação de grupos de contato & troca de informação. Facilitar relações eróticas entre terrestres & tripulantes dos OVNIS.
7 - Nova orientação dos neurônios através da Gastronomia Combinada & da Respiração.
8 - Distribuição de manuais entre sexólogas (os) explicando por que o coito anal derruba o Kapital
9 - Banquetes oferecidos à população pela Federação das Indústrias.
10 - Provocar o surgimento da Bossa-Nova Metafísica & do Pornosamba. O Estado mantém as pessoas ocupadas o tempo integral para que elas NÃO pensem eroticamente, libertariamente. Novalis, o poeta do romantismo alemão que contemplou a Flor Azul, afirmou: "Quem é muito velho para delirar evite reuniões juvenis. Agora é tempo de saturnais literárias. Quanto mais variada a vida tanto melhor ".

segunda-feira, maio 01, 2006

Ter fé e ver coragem no amor...


“Selecionei as neuroses mais comuns e que podem nos levar além da fronteira convencionada: necessidade neurótica de agradar os outros. Necessidade neurótica de poder. Necessidade neurótica de explorar os outros. Necessidade neurótica de realização pessoal. Necessidade neurótica de despertar piedade. Necessidade neurótica de perfeição e inatacabilidade. Necessidade neurótica de um parceiro que se encarregue da sua vida – ô! Deus – mas desta última necessidade só escapam mesmo os santos. E algumas feministas radicais.Tão difícil a vida e seu ofício. E ninguém ao lado para receber a totalidade dos seres humanos, isso nos últimos anos da sua vida sem muita ilusão...A minha tiazinha falava muito na falta que lhe fazia esse ombro amigo, apoio e diversão, envelheceu procurando um. Não achou nem o ombro nem as partes, o que a fez chorar sentidamente na hora da morte, Mas o que você quer, queridinha?! a gente perguntava. Está com alguma dor? Não, não era dor. Quer um padre? Não, não queria mais nenhum padre, chega de padre. Antes do último sopro, apertou desesperadamente a primeira mão ao alcance: 'É que estou morrendo e não me diverti nada!' ”
(Lygia Fagundes Telles)