quarta-feira, julho 02, 2008

milésima teoria sobre o amor


De todos os laços o abraço é o que mais temo. Quando sinto seu corpo pressionando o meu; este corpo solto que vai e volta a cada estação.
E dessas temporadas me restam alguns sorrisos na parede da lembrança, uma agonia contida nas lágrimas que me recuso deixar cair...
Se partires novamente eu mudarei de planeta. Colecionarei pedras duma terra distante até que meus olhos virem borrões numa fotografia antiga nossa.
Tenho muito mais medo que amor nesses ares de junho, nesse frio que invade os casacos dos pedestres e tece rugas numa idosa miserável do farol; que a gente se beija e espera fechar para passarmos. Como quem espera o aval dos anjos para repousar não só o corpo, mas também o coração num sexo sagrado.
Mas o sexo é como uma celebração dum amor que só existe no gozo.
Porque o amor morre assim que a última peça de roupa é colocada de volta.
Ele se perde nos bolsos das jaquetas de couro, na sola das botas...
Queria sim escrever-te sobre os amores que não coexistem apenas com o sexo. Mas este amor é para os versos, para as histórias de cinema.
No mundo das pessoas que não suportam estar sóbrias o amor é como um gemido; é cor somente, entre as tantas cores dos orgasmos...
O amor só existe no passado, isso quando ele consegue passar pelas portas dos quartos de motéis. Quando ele se camufla no perfume dela que fica no peito dele; quando se agarra no fio de cabelo dela que se enrolou na camiseta dele.
O amor é muito frágil depois que as pessoas se tornam reais. Ele é quase um morador de rua com seus cães famintos, depois que o encanto se quebra; que os olhos se frustram e o coração adormece.
Juro, queria muito persistir na beleza das mãos uma sobre a outra; queria discursar sobre aquela sensação infame e doce dum amor cego e tirano, porém, eu não coleciono mais sensações... Agora eu empilho as pedras do que restou de nós... A poeira me sufoca, os números do calendário me enganam... As crianças dos meus sonhos se molestam no quintal, logo elas que dançavam com flores nos cabelos. Era tudo tão belo e mágico!
Agora, apenas as palavras mais cinzas, os verbos mais pesados, e esse amor que sinto, quase ganha a dimensão e o fluxo da nossa covardia e da nossa limitação. Amor real, que ao contrário dos meus sonhos, não depende mais de você para morrer...