terça-feira, junho 13, 2006

Nunca mais a cidade, nunca mais você

Sempre que surgia com suas cores e suas vidas enlaçadas - fazendo miséria no intervalo do ser e o esquecer-; a paixão ia tomando a paisagem disfarçada de perfeição.
A menina baixou a guarda, engoliu seu último pedido de clemência para a noite que só fez travestir de luz um olhar - que hoje eu sei - era somente escuridão.
Deixou de ser petulante, perdeu sua arrogância enquanto aquele ser costurava suas iniciais no seu peito aberto; escancarado pra toda aquela sensação de dor tão pungente que trazia seu fim em si mesma; por simplesmente fazê-la sorrir...
E foram tantos os sorrisos, palavras e saliva que ela pensou acumular na alma dele por trazer vigor em estar...
Era uma cidade imensa, tão grande que cabia dentro dela, pobre menina que carregou dentro de si uma cidade engrandecida (com luzes, ratos e cantores de blues taciturnos) por pensar que estaria carregando ele também (como uma raposa que adota cães alimentando com seu leite e sangue tudo que neles faltar); ele e toda aquela agonia quase irritante que sentia ao vê-lo rir da sua falta de paciência com tudo que respirava sem o mínimo de graça perto dela.
No entanto, ele - o menino da língua grande que roubava as estrelas do céu da boca dela, o menino dos olhos (negros) dela - não vivia na cidade que ela engoliu; ele não tinha tempo, não tinha vocação (a maldade nata do sexo masculino quando pensa se unificar com outro exemplar dessa espécie menor), ele não queria e nem podia ficar na cidade engolida pela menina...
Sina? Contradição dos deuses? Ingratidão dos ventos que só nos tocam e se vão? Ou dos que traziam as folhas do lado de lá?
Eu não sei! Eu nunca sei...
Mas não valeu mesmo o desenrolar dos cabelos, não adiantou nem mesmo o desenho e a poesia em linhas tortas, não se fez válida sequer a sinceridade -matéria prima- de cada gesto novo da menina.
Agora correndo entre as mais novas formas de vida, entre os mais caros sorrisos perfeitos, entre as imagens mais superficialmente belas; a menina enfia um resto de estrela garganta a baixo forçando um vômito dolorido, mas é inútil, esse corpo estranho que é a cidade já se perdeu dentro dela, assim como perdidas ficaram todas aquelas chances e olhares que complementaram o outro num vão que parecia terno.
Tudo precisa ser vomitado, mesmo que se perca a bile, mesmo que se perca a si mesmo num gesto bruto de quem descobriu que nunca nada no mundo foi feito pensando em você.

Por Amanda Cristina Carvalho em algum dia de junho de 2006.

4 comentários:

disse...
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disse...

"...Tudo precisa ser vomitado..."
Mas mesmo assim, ainda fica um pouco.
As vezes um botão. As vezes um rato.



Beijo, fique bem!

Luís Fernando disse...

Buenas.
Você é uma cronista da vida real.
Por isso eu freqüento tanto aqui.
Hoje estou precisando de uma carga de fantasia, é o pior dia desde que comecei a trabalhar na procuradoria.
Saca o peso dum piano? Pois é. Me sinto assim por culpa alheia. =(
Se cuida.
29 beijos do pior escritor que tu conhece.

jwagner disse...

eu continuo lendo, Amanda... só não comento! rs
como sempre, ótimos textos.

bjo, moça